segunda-feira, 15 de abril de 2013

Artigo: Não se perca nos detalhes


Aparentemente o passo a passo da imagem do T-rex cartoon acima está perfeito: Primeiro um rascunho (achando as forma tridimensionais), depois uma pintura bem blocada de luz e sombra (para enxergar melhor o personagem) e por fim adicionar detalhes (no caso, ainda apenas na cabeça). Bem, não está errado, mas se você pinta suas imagens assim você  pode ter alguns problemas futuros para finalizar sua ilustração.

Na matéria "Como NÂO fazer uma ilustração" mostro com alguns exemplos que há 1000 formas diferentes de se fazer uma ilustração, mas somente UMA de se fazer errado (e que infelizmente, por se tratar de uma maneira que colabora com nossa preguiça, entre 1000 possibilidades a maioria dos ilustradores  escolhem aquela uma) 

Mas nesse caso não vou falar que fazer uma ilustração seguindo o exemplo do t-rex acima esteja errado. Na verdade não existe exatamente o conceito de "errado" na hora de se pintar, mas é interessante saber que alguns caminhos são um pouco perigosos... E o caminho de confecção desse t-rex  vai gerar 2 problema diferente.


a) O problema psicológico
Logo depois que uma "blocagem" é feita é comum que o artista corra para a área que ele mais goste de desenhar e fique horas ali dando detalhes. É perfeito: ele  vai na empolgação e deixa aquela área linda. Mas depois de ficar 2 dias pintando a cabeça ele olha para o resto da ilustração e pensa "POUTS, a cabeça ficou muito legal, mas eu tenho mais 2 dias de trabalho para cada parte dessa ilustração, que merda" 

Pronto, espelhar o tempo gasto na parte que você mais gosta de desenhar nas áreas restantes faz vir o sentimento de largar tudo, recortar a imagem só na cabeça e fingir pra você mesmo que só queria fazer um retrato... (viche, tenho muitos desenhos de retratos que na verdade parei porque desisti do resto! Você tem desenhos assim também?)


b) Diferentes realidades
Ok, você é um guerreiro! Encara como uma a luta os próximos 6 dias desenhando as outras áreas: uma vítória por vez. Parte a parte você vai vencendo e desenho. Sabe o que vai acontecer? 

Como você gosta de desenhar cabeças é muito provável que em todo o seu desenho haja uma mistura de realidades: algumas áreas do desenho vão estar mais bem desenhadas que outras. Como são desenhos diferentes até o estilo de cada parte pode estar diferente. Como o desenho não é encarado como um todo você tem apenas uma montagem. Além disso, a chance de ser um desenho "duro, sem expressão de movimento" é muito alta.


A graduação da pintura
Abaixo está o primeiro GIF animado da matéria mostrando a graduação de detalhes da pintura do dragão bobo. 


Essa imagem é um GIF ANIMADO com um passo a passo.
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Esse dragão é um dos elementos de uma pintura maior chamada "Amigo é a sua vez" que fiz em 2007.  (viche, já faz 6 anos - aff!). Bom, essa pintura eu fiz justamente para gerar um material didático que foi publicado na revista "Digital Designer nº 87" - prometo que reviso o artigo e publico por aqui o quanto antes

Analise o seguinte nesse passo a passo: primeiro fiz um rascunho à grafite. Depois fiz um estudo de cores. A partir daí cobri com uma camada de pintura e em cada camada subsequente todos os detalhes são colocados uniformemente por cima de todo o personagem.

Não há uma área na qual eu dediquei mais tempo ou fiz primeiro. Cada camada contém um tipo de detalhe que é colocado uniformemente. Primeiro só a luz. Depois só os musculos. Depois só as escamas, e por aí vai... 

Isso ajuda na questão psicológica: se a cada camada de pintura você visualizar todo o personagem nascendo não haverá aquela sensação de que "o restante vai ser chato" ou que "ainda falta muito". o que faltará será apenas "mais uma ou duas mãos de tinta".

Da mesma forma isso ajuda na questão da realidade: Como os detalhes são colocados em camadas iguais  você até pode saber detalhar melhor algumas partes individualmente, mas vai se segurar para que seu trabalho fique bem composto com os detalhes uniformes por toda a pintura.


Essa imagem é um GIF ANIMADO com um passo a passo.
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Na mesma época (2007) uma amiga, Andreia Arakaki, havia pedido para que eu arrumasse uma fotografia que ela havia tirado. A famosa "fotografia na frente do espelho" cujo resultado é ter uma câmera muito visível na imagem. Ela pediu "retira a câmera da imagem pra mim???" e deu um sorriso... E você acha que eu ia negar um pedido tão carinhoso? cof cof, hum bem...

Eu poderia simplesmente ter tirado uma segunda foto dela, na mesma pose  e feito um "frankenstain photoshópico". Ia ser bem mais fácil fazer uma montagem, recortando o braço de uma foto e colando na outra. Com certeza ia ficar mais perfeito. Mas como eu estava no meio da confecção do artigo do dragão bobo resolvi fazer com pintura e usando a mesma técnica de camadas de detalhe, gerando um material extra para minhas aulas. 

Depois que terminei eu pensei: "se eu tivesse feito um "frankeinstain photoshópico" tirando o braço de uma segunda foto e montando por cima, ficaria muito mais perfeito se a fusão entre as duas fotografias eu fizesse exatamente com essa técnica. Ia ficar bem melhor que uma mascará qualquer, pois eu nivelaria a luz das duas fotos com a pintura"

Bom, mas deixando a técnica de pintura sobre imagem de lado (pois já falo disso aqui), Nesse passo a passo gostaria que vocês percebessem uma segunda coisa: A forma como eu controlo cada camada.

É muito simples. Note que para eu não colocar mais detalhes onde não devo eu uso pinceis de tamanhos diferentes em cada camada de detalhe

Como assim? Se você usar um pincel GRANDE, será praticamente impossível de fazer detalhes pequenos. Então esse é o truque: a primeira camada de pintura deve ser feita com um pincel gigantesco. Depois você diminui o tamanho do pincel em 10% e refaz a pintura por cima. Depois, novamente, diminui o pincel mais 10% e faz uma terceira camada.

Cada vez que o pincel é diminuído mais detalhes e possível fazer com ele. Não seja ansioso. Diminua só um pouco o pincel para cada camada e vá corrigindo o possível com cada pincel. Sacou?

Como disse não estou falando uma forma de se fazer certo. Já vi pessoas com as técnicas mais rudimentares fazerem grandes obras. Entenda essa matéria como um "Conselho de amigo". Quem sabe esse não seja um caminho pelo qual você consiga chegar a melhores resultados?

Sobre o Dinosauro cartoon? Bom, eu o terminei, sim. Na verdade a imagem lá no topo é FAKE, eu a criei apenas para exemplificar. 

MAS MESMO ASSIM se você olhar o making of dela, no gif animado abaixo, vai perceber que essa pintura (feita em 2005) ainda não seguia muito bem a questão da diminuição dos pinceis. Na verdade quando fiz essa imagem eu ainda era aluno e essa foi a minha primeira tentativa de fazer uma ilustração usando do conceito de "do pincel maior para o pincel menor"

Teve horas que não consegui me segurar e saí fazendo detalhes em locais específicos... Mas vou dizer: essa foi a primeira imagem que consegui terminar tendo detalhes tão bonitos... Nunca havia conseguido fazer isso antes. A técnica me ajudou muito! 



Essa imagem é um GIF ANIMADO com um passo a passo.
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